INTERNACIONAL
‘Saí à caça dos homens que filmavam secretamente suas mulheres e compartilhavam os vídeos na internet’
Documentário da BBC mostra a produção e compartilhamento de imagens e vídeos íntimos de mulheres sem autorização na internet. O que mais perturbou a apresentadora Jess Davies foi a divulgação de vídeos mostrando esposas e namoradas, filmados em casa sem consentimento.
Existem homens que filmam secretamente suas mulheres e namoradas e postam os vídeos na internet, para depois se vangloriarem das suas gravações.
Outros procuram mulheres desconhecidas. Um deles carrega uma câmera escondida na calçada, na esperança de filmar mulheres urinando.
Segundo a entidade britânica especializada em abusos domésticos Refuge, as denúncias de abusos cometidos com dispositivos tecnológicos aumentaram em 78% durante um ano.
Já a entidade galesa Welsh Women’s Aid afirma ser difícil quantificar a escala do problema porque a maioria das vítimas nem sabe o que está acontecendo.
Um novo documentário da BBC revela uma sombria rede online de câmeras ocultas.
Em Hunting the Spycammers (“À caça das câmeras espiãs”, em tradução literal), a apresentadora Jess Davies se uniu à jornalista investigativa Liam Connell, que já havia se infiltrado anteriormente em redes secretas na internet.
Este é um tema de interesse pessoal para Davies. Ela já foi fotografada nua em segredo enquanto estava dormindo e suas imagens foram compartilhadas em um grupo privado de WhatsApp.
A dupla teve acesso a um website de voyeurismo, que é o hábito ou fetiche de obter excitação sexual através da observação de pessoas nuas ou em atos sexuais. O endereço incluía links que levam seus usuários para grupos de bate-papo criptografados.
Com isso, elas descobriram pessoas trocando abertamente dicas sobre como fazer filmagens clandestinas e se vangloriando das suas gravações.
“É um ciclo sem fim de distribuição em massa de conteúdo não consensual de mulheres”, explica Davies. “Parece que essas mulheres são caçadas como se fossem presas.”
O documentário revelou pessoas escondendo câmeras em quartos, banheiros, vestiários e outros espaços privados.
“Pareceu uma violação tão grande, pensar que alguém que foi importante para mim pôde fazer isso comigo”, ela conta. “Faz você se sentir inútil.”
“Ver imagens similares de outras vítimas compartilhadas no fórum onde estávamos infiltradas trouxe de volta esse sentimento de traição e me fez questionar onde minha imagem terá ido parar.”
“Será que ela chegou até um desses fóruns?”
Para Davies, alguns minimizam o impacto dessas ações como sendo inofensivas ou “simples brincadeiras”.
“Já outros, como os voyeurs que mencionamos no programa, acham que, se a vítima nunca souber que foi filmada sem consentimento, não há problema. Isso realmente destaca como se minimiza o abuso de imagens e as ofensas na internet.”
“Atrás de cada imagem ou vídeo, há uma pessoa que precisará viver com esta traição pelo resto da vida.”
Davies destaca que “o que é realmente perturbador é a quantidade de perpetradores que filmam e compartilham conteúdo de pessoas (principalmente mulheres) que foram suas parceiras amadas”.
“Isso realmente destaca como qualquer pessoa pode ser atingida por este mal.”
Durante sua investigação, a jornalista galesa de 33 anos ficou conhecendo a variedade da tecnologia disponível de câmeras espiãs de baixo custo. Existem câmeras disfarçadas como objetos do dia a dia, como canetas, odorizadores de ambientes e tomadas.
Câmera escondida em resort em Porto de Galinhas — Foto: Reprodução
Davies questionou o proprietário do fórum que as duas repórteres entraram infiltradas.
“Ele nos disse que verifica regularmente o conteúdo e retira material não consensual”, ela conta.
“Mas, observando as evidências que encontramos, parecia haver pouca consideração pelos danos permanentes causados por aquele conteúdo para as vítimas.”
“A impressão era que as pessoas filmadas sem consentimento foram totalmente ignoradas e desprezadas, como se o seu consentimento não fosse necessário.”
“Na verdade, essa falta de consentimento era o que motivava muitos dos espiões”, lamenta a apresentadora.
Davies espera que o documentário aumente a consciência sobre os danos causados pelas câmeras escondidas e reforça que os abusos de privacidade e consentimento “nunca devem ser normalizados”.
Fonte: g1