AMAZONAS
Indígenas de recente contato são vistos em rio perto de cidade no AM; especialistas alertam para evitar proximidade
Em um vídeo gravado por uma moradora, o grupo da etnia Korubo aparece se deslocando em embarcações no município de Atalaia do Norte.
Um grupo de indígenas da etnia Korubo, de recente contato com a sociedade, foi visto navegando por um rio no município de Atalaia do Norte, no interior do Amazonas. O avistamento em uma área próxima a comunidades ribeirinhas gerou apreensão entre moradores, mas especialistas alertam que qualquer tentativa de aproximação deve ser evitada para proteger os indígenas e respeitar a política brasileira de não contato com povos isolados e de recente contato.
Em um vídeo gravado por uma moradora, o grupo aparece se deslocando em embarcações enquanto pessoas gritam ao fundo. No relato, ela pede apoio às autoridades responsáveis pela proteção dos povos indígenas.
“Autoridade, alguém aí da Funai, não sei, de algum desses órgãos, esses indígenas estão parando no nosso porto. Eles chegam aqui aos gritos. Agorinha eles pararam aqui no nosso porto, pararam semana passada, meu irmão falou para eles não vir, e relatos dizem que são Korubo e a gente está com medo deles, porque estão agressivos. Se alguém puder fazer alguma coisa, a gente agradece”, disse a moradora.
Ao g1, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) informou que, até o momento, “não há confirmação técnica de ocorrência que indique situação de risco ou deslocamento atípico do grupo Korubo que justifique a alteração dos protocolos de proteção”.
De acordo com o órgão indigenista, o grupo retratado na filmagem habita a região do baixo rio Ituí e do baixo rio Itacoaí e estava a caminho da sede de Atalaia do Norte para visitar parentes. Durante o trajeto pelo rio Itacoaí, os indígenas fizeram uma breve parada na comunidade ribeirinha de Cachoeira para pedir alimentos”, explicou a Funai.
A Funai também esclareceu o motivo dos gritos relatados pela moradora no vídeo:
“Em razão de suas características socioculturais, os Korubo costumam emitir vocalizações específicas ao se aproximarem de determinados locais ou durante suas interações. Para pessoas que desconhecem seus costumes e formas de comunicação, tais manifestações sonoras podem causar estranhamento ou apreensão. Contudo, esse comportamento integra suas práticas culturais e, por si só, não representa situação de agressividade ou ameaça”, explicou a nota da instituição.
O órgão reforçou ainda que existem outros grupos Korubo em isolamento voluntário no Vale do Javari, mas em regiões distantes da mostrada nas imagens, sem qualquer ligação com o episódio. A Funai informou que enviará uma equipe técnica da Frente de Proteção Etnoambiental (FPE-VJ) à comunidade Cachoeira para dialogar com os moradores, prestando esclarecimentos culturais para evitar desinformação e prevenir conflitos.
Grupo é de recente contato e Funai atua no diálogo, diz Observatório
Ao g1, o Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (Opi), organização que defende o direito desses povos à autodeterminação e a manter seus modos de vida próprios, esclareceu que os indígenas Korubo vistos no vídeo não pertencem a um grupo totalmente isolado.
De acordo com a entidade, trata-se de indígenas de recente contato, que passaram a estabelecer relações com a sociedade a partir da década de 1990. Mais recentemente, esse grupo tem se deslocado com maior frequência entre a Terra Indígena Vale do Javari e a sede do município de Atalaia do Norte , deslocamentos que, muitas vezes, são estimulados pelo próprio poder público municipal.
O Opi ressaltou ainda que as comunidades do entorno precisam compreender que esses povos possuem diferenças culturais e de costumes significativas em relação à sociedade não indígena, mas enfatizou que tais diferenças precisam ser respeitadas e não devem ser interpretadas automaticamente como ameaças.
Ainda segundo a entidade, o vídeo chegou ao conhecimento das autoridades e a Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari, unidade da Funai responsável pela proteção dos grupos isolados e de recente contato na região, já está atuando para mediar as relações e o diálogo entre os Korubo e os moradores não indígenas da área.
Fonte: g1 AM