AMAZONAS
‘Kamara’ e ‘Mãe da Mata’: toadas do Boi Garantido inspiram nomes de novas espécies de gafanhoto descobertas por pesquisadora no Amazonas
As espécies Kamara kratxatxa e Proscopia caacy foram inspiradas em toadas do Festival de Parintins. A primeira contou com colaboração do indígena João Kamarayano.
No Amazonas, duas toadas do Boi-Bumbá Garantido ganharam espaço na ciência. ‘Kamara’ e ‘Mãe da Mata’ agora dão nome a espécies de gafanhotos descobertas em pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). O estudo, publicado em 24 de julho na revista internacional Zootaxa, identificou nove novas espécies de gafanhotos e quatro novos gêneros. Oito delas foram encontradas na Amazônia brasileira.
Entre as descobertas, duas chamam atenção por homenagear o Festival Folclórico de Parintins. A espécie Kamara kratxatxa, que significa “gafanhoto-onça”, foi inspirada na toada ‘Kamara’, lançada pelo Boi-Bumbá Garantido em 2026. A construção do nome contou com a colaboração de João Kamarayano, da etnia Hixkaryana, incorporando elementos da língua e da cultura indígena à nomenclatura científica.
🔍O Boi-Bumbá Garantido integra um dos maiores patrimônios culturais do Brasil, o Festival de Parintins. Ao lado do Boi-Bumbá Caprichoso, os bois promovem uma festa popular que celebra a cultura amazônica e a rivalidade centenária. Em 2026, a tradicional foi realizada nos dias 26, 27 e 28 de junho.
Já Proscopia caacy foi inspirada na toada ‘Mãe da Mata’, apresentada pelo Garantido em 2011. A palavra Caacy, de origem tupi-guarani, significa “mãe da floresta”.
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A espécie Kamara kratxatxa, que significa “gafanhoto-onça”, foi inspirada na toada Kamara, lançada pelo Boi-Bumbá Garantido em 2026. — Foto: Foto: Larissa Lima de Queiroz
A pesquisa contou com a participação da pesquisadora amazonense Larissa Lima de Queiroz, e de José Albertino Rafael, do Inpa, e Raphael Aquino Heleodoro, do Museu Nacional (MNRJ).
Segundo a pesquisadora Larissa Lima de Queiroz, a escolha dos nomes aproxima ciência e cultura.
“Quis batizar parte da fauna da Amazônia com nomes inspirados nos povos originários. O Festival de Parintins ensina sobre etnias, línguas e tradições da região. Como sou a única pesquisadora amazonense que estuda gafanhotos no Brasil, quis batizar essa pequena parte da fauna da Amazônia brasileira com nomes inspirados nos povos originários. Também sou Garantido desde pequena, usei como inspiração minhas toadas favoritas, ‘Mãe da Mata’ e ‘Kamara’”, disse Larissa.
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Já Proscopia caacy foi inspirada na toada Mãe da Mata, apresentada pelo Garantido em 2011. — Foto: Foto: Nereston Camargo
A pesquisa começou em 2019, durante o doutorado de Larissa, mas o trabalho de campo só iniciou em 2022, após a vacinação contra a Covid-19.
Além das expedições, ela analisou exemplares preservados em museus no Brasil e no exterior. Alguns insetos, como os de Proscopia caacy, haviam sido coletados em 1984, mas só agora foram reconhecidos como espécie nova.
“Parte da busca por novas espécies é realizada em museus, a partir de exemplares coletados anteriormente por outros pesquisadores. Os gafanhotos de Proscopia caacy, por exemplo, foram coletados em 1984, mas somente agora descobrimos que se tratava de algo novo”, explicou Larissa.
Cinco meses para encontrar um inseto
Encontrar gafanhotos inéditos não é tarefa simples. Um dos grupos recebeu o nome Celatus, que significa “escondido” em latim. A equipe levou cinco meses para localizar o primeiro macho da espécie Celatus nath, em Presidente Figueiredo.
Outra novidade é Milenascopia uatuma, encontrada na Reserva Biológica do Uatumã. A coleta foi realizada em uma floresta alagada, utilizando uma lancha para alcançar gafanhotos que estavam sobre árvores parcialmente submersas, uma área de várzea.
Das nove espécie, oito espécies foram registradas na Amazônia brasileira:
- Celatus nath – Presidente Figueiredo, no Amazonas;
- Kamara kratxatxa – Rio Branco, no Acre;
- Lianascopia albae – Tiquié, no Amazonas;
- Lianascopia domenicoi – Amajari, em Roraima;
- Milenascopia uatuma – Presidente Figueiredo, no Amazonas;
- Proscopia caacy – Serra Norte, no Pará;
- Pseudoproscopia taka – Itaituba, no Pará;
- Pseudoproscopia trajakan – Manicoré, no Amazonas.
Amazônia ainda guarda espécies desconhecidas
O estudo também descreveu quatro novos gêneros, que agrupam diferentes espécies. O gênero Kamara, por exemplo, já reúne três espécies.
Para a pesquisadora, descobrir um novo gênero é um avanço ainda maior do que encontrar uma nova espécie.
“Isso mostra como ainda conhecemos pouco da biodiversidade, principalmente na Amazônia. Não descobrimos apenas espécies, mas também grupos inteiros desconhecidos pela ciência”, disse Larissa.
Larissa espera que o estudo incentive a valorização da fauna e da cultura amazônica.
“Eu gostaria que o nosso país conhecesse melhor os animais fantásticos que existem na nossa floresta e entendesse que o Norte é forte, rico em diversidade e cultura. Isso sempre será motivo de orgulho, e agora uma parte dessa cultura também está eternizada na ciência”, concluiu.
Fonte: g1 AM
