NACIONAL
Amelinha Teles, vítima da ditadura, morre aos 81 anos
Escritora e ativista foi presa e torturada durante a ditadura militar e dedicou a vida à defesa dos direitos humanos e das mulheres
A escritora, jornalista e ativista dos direitos humanos Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha Teles, morreu nesta terça-feira (15), aos 81 anos. Presa e torturada durante a ditadura militar, ela se tornou uma das principais vozes na denúncia das violações cometidas pelo regime e dedicou décadas à defesa da democracia e dos direitos das mulheres.
Amelinha foi presa em dezembro de 1972 por sua militância no Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e levada à Operação Bandeirantes (Oban), estrutura da repressão política em São Paulo. Em seus depoimentos, relatou ter sofrido torturas físicas e violência sexual durante o período em que esteve presa.
Os filhos de Amelinha, Edson e Janaína, então com 4 e 5 anos, também foram levados ao local e presenciaram os pais sendo torturados. Sua irmã, Criméia Alice Schmidt de Almeida, que estava grávida de oito meses, também foi presa e torturada.
Décadas mais tarde, a família Teles protagonizou um processo histórico contra o coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, que comandou o DOI-Codi de São Paulo durante parte da ditadura.
Em 2008, a Justiça de São Paulo reconheceu Ustra como torturador em uma ação declaratória movida pela família. Ele foi o primeiro agente da ditadura brasileira a receber judicialmente essa classificação. A decisão foi posteriormente mantida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em 2012.

Quem foi Amelinha Teles
Nascida em Contagem (MG), em 6 de outubro de 1944, Amelinha começou a militância política ainda jovem. Inicialmente ligada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi presa com a irmã após o golpe militar de 1964.
A partir de 1965, viveu na clandestinidade. Passou a integrar o PCdoB em 1968 e, ao lado do marido, César Augusto Teles, participava da produção de materiais do partido em uma gráfica clandestina.
Em 28 de dezembro de 1972, Amelinha foi presa junto com o marido e levada à Oban. Segundo os relatos que deu posteriormente à Justiça e à Comissão Nacional da Verdade, ela foi submetida a choques elétricos, agressões e violência sexual.
Ao longo da vida, integrou a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e participou dos trabalhos da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”.
Feminismo e defesa dos direitos das mulheres
A trajetória de Amelinha Teles também foi marcada pela militância feminista. Na década de 1970, participou do Brasil Mulher, uma das publicações pioneiras do movimento feminista brasileiro durante a ditadura.
Em 1984, ajudou a fundar a União de Mulheres de São Paulo, organização voltada à promoção dos direitos das mulheres e ao enfrentamento da violência de gênero.
Amelinha também participou, durante a Assembleia Nacional Constituinte, da mobilização que ficou conhecida como Lobby do Batom, movimento de mulheres que pressionou parlamentares pela inclusão de direitos e garantias de igualdade na Constituição de 1988.
Na década seguinte, esteve à frente da criação do projeto Promotoras Legais Populares, iniciativa de formação de mulheres sobre direitos, cidadania e acesso à Justiça.
Além da atuação política e social, Amelinha transformou parte de sua experiência e de sua militância em livros e artigos. Entre as obras estão ‘Breve História do Feminismo no Brasil’, ‘O que é Violência contra a Mulher,’ escrito em coautoria com Mônica de Melo, e ‘O que são Direitos Humanos das Mulheres?’.
Fonte: SBT News
