INTERNACIONAL
Governo Trump mantém silêncio enquanto Rússia atinge empresas americanas
Mísseis e drones russos atingiram instalações de marcas como Coca-Cola e McDonald’s nos últimos meses
Embora o presidente Donald Trump e seu governo tenham intensificado a pressão sobre a Ucrânia para que cesse os ataques a refinarias russas — alegando prejuízos aos consumidores americanos —, eles mantiveram silêncio sobre os recentes ataques russos a empresas dos Estados Unidos na Ucrânia.
Nos últimos meses, a Rússia intensificou seus ataques a instalações ligadas a corporações americanas — e à infraestrutura civil da Ucrânia de modo geral.
Segundo Andy Hunder, presidente da Câmara de Comércio Americana na Ucrânia, mísseis e drones russos danificaram instalações pertencentes a algumas das marcas americanas mais conhecidas, incluindo Coca-Cola, PepsiCo, McDonald’s e Oreo.
Embora a Rússia já tenha tentado prejudicar negócios americanos bem-sucedidos no passado, a situação atual “não tem precedentes em relação ao que vimos nos últimos meses”, disse Hunder à CNN.
“Trata-se de ataques diretos com drones e mísseis, e eles continuam atingindo esses alvos. Isso envia a mensagem de que estão mirando empresas americanas. Não vemos nenhuma reação da Casa Branca”, disse ele.
“Precisamos que isso pare, pois são interesses, dinheiro e investidores americanos que estão sendo atingidos e visados”, afirmou ele.
Quando um drone russo atingiu uma fábrica da Coca-Cola nos arredores de Kiev, no início de setembro, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que o ataque era um “sinal claro” para os EUA.
“Hoje, os russos atingiram uma fábrica da Coca-Cola com um drone. A Coca-Cola tornou-se tamanha inimiga para eles que estão incendiando-a com seus Shaheds”, disse Zelensky em seu pronunciamento noturno em vídeo no dia 3 de setembro, referindo-se a “drones de projeto iraniano”.
“Este é um sinal claro da Rússia para a América. Os russos certamente sabem que se trata de um empreendimento americano”, acrescentou o presidente ucraniano.
Mais tarde naquele mês, os russos usaram “um drone de ataque” para destruir um depósito utilizado pelo McDonald’s, disse Zelensky em uma publicação no X.
O McDonald’s Ucrânia confirmou, em comunicado, que “um depósito operado por um de nossos parceiros de logística na região de Kiev foi danificado em um ataque de drone em 25 de setembro”.
“Um drone de ataque — contra produtos alimentícios comuns”, escreveu ele. “Os russos estão expandindo constantemente sua operação de escalada: empresas americanas e de outras nacionalidades, centros de dados, provedores de internet — para a Rússia, a vida cotidiana, por si só, é simplesmente um alvo.”
McDonald’s oferecendo um cardápio reduzido
O McDonald’s da Ucrânia informou que, em decorrência dos danos, seus restaurantes estão oferecendo um cardápio reduzido.
A PepsiCo reconheceu, em um comunicado no final de agosto, que uma unidade de produção na região de Mykolaiv foi danificada, mas não houve vítimas.
Não há consenso entre as empresas americanas que operam no local sobre o quanto desejam falar publicamente a respeito de terem sido atingidas “ou divulgar o fato de que foram alvo de ataques múltiplas vezes”, disse à CNN um ex-alto funcionário do Departamento de Estado.
“Algumas empresas realmente querem que abordemos essa questão”, corroborou Hunder, mas outras “estão agindo com muita cautela”.
No entanto, vários legisladores democratas dos EUA pediram publicamente à Casa Branca que faça mais para proteger as empresas americanas na Ucrânia e denuncie as ações de Moscou.
A Ucrânia tem apontado os ataques como mais um motivo para intensificar o apoio à defesa, de modo a garantir proteção suficiente às empresas americanas que atuam no país.
A Câmara de Comércio se reúne com legisladores americanos de ambos os partidos quando eles visitam Kiev, e Hunder disse à CNN que eles pediram a esses parlamentares que levassem a questão à Casa Branca.
O presidente Donald Trump manifestou-se publicamente ao ser questionado, em agosto de 2025, sobre um ataque russo a uma fábrica de eletrônicos dos EUA, afirmando ter dito ao presidente russo, Vladimir Putin, que “não estava satisfeito com isso”.
Uma autoridade da Casa Branca disse que Trump “quer que a guerra pare completamente, para que a matança insensata chegue ao fim”.
“O presidente e sua equipe continuam empenhados em desempenhar um papel construtivo para acabar com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, e ele permanece otimista de que, no final, chegaremos a um acordo de paz”, disse a autoridade, argumentando que os EUA são “o único país do mundo” capaz de “desempenhar um papel construtivo ao dialogar com ambos os lados, trabalhando para pôr fim à guerra”.
A administração condenou os ataques ao setor de energia da Ucrânia
Ainda assim, a relativa ausência de condenação por parte da administração Trump em relação aos ataques contrasta com as advertências feitas ao governo ucraniano sobre ataques à infraestrutura energética russa.
Em fevereiro, a CNN noticiou que a administração havia alertado Kiev de que seus ataques a uma instalação petrolífera russa no Mar Negro, no final do ano passado, haviam afetado investimentos dos EUA no Cazaquistão.
Nas últimas semanas, Trump atribuiu a alta nos preços dos combustíveis — impulsionada pelo conflito entre EUA e Irã — aos ataques da Ucrânia contra instalações de diesel russas.
Na última sexta-feira (9), o presidente anunciou um acordo para a suspensão de sanções e a compra de diesel da Rússia, desafiando a legislação dos EUA.
Os Estados Unidos também ameaçaram restringir o compartilhamento de informações de inteligência e o fornecimento de munições à Ucrânia caso Kiev não interrompa esses ataques, segundo fontes informaram à CNN.
Hunder disse à CNN que tem dificuldade em compreender o silêncio relativo do governo sobre o assunto, especialmente considerando o quanto a administração se apresentou como defensora das empresas americanas.
“Qualquer empresa, qualquer negócio, quer ter algum tipo de proteção. Espera-se que o governo apoie você e lute ao seu lado, principalmente quando são forças militares estrangeiras que estão atacando empresas americanas”, afirmou ele.
O ex-alto funcionário do Departamento de Estado observou que “há muita gente nos círculos oficiais de Washington que acha que as únicas pessoas autorizadas a falar sobre a Ucrânia são Steve Witkoff e Jared Kushner e que, se não forem um dos dois, devemos nos manter fora do assunto”. Por isso, é um desafio até mesmo chamar a atenção para os ataques contra empresas dos EUA.
“A ideia de receber uma justificativa” para o silêncio dos EUA sobre os ataques “não é algo que se possa esperar”, disseram eles à CNN.
Hunder disse que a Câmara de Comércio Americana enviou uma mensagem solicitando uma reunião com Witkoff e Kushner no mês passado para atualizá-los sobre a situação das empresas americanas na Ucrânia, incluindo os ataques mais recentes contra negócios americanos.
“Não obtivemos nenhuma resposta a respeito”, disse ele.
Fonte: CNN Brasil
