AMAZONAS
Bebê morre por negligência no Instituto Dona Lindu: gestão da AGIR é alvo de denúncias graves em Manaus
A morte de uma bebê após horas de sofrimento da mãe no Instituto da Mulher Dona Lindu, em Manaus, escancarou o caos e o descaso dentro de uma das principais maternidades do Estado.
O caso aconteceu na madrugada de 28 de outubro, quando uma gestante deu entrada na unidade com fortes dores, sangramento e dilatação avançada, mas esperou por mais de dez horas até o parto ser realizado. A criança nasceu sem vida.
Segundo relato da mãe, ela chegou ao hospital com a gravidez considerada de risco, devido a complicações renais e uso de duplo J, mas foi informada pela médica de plantão de que “não havia necessidade de internamento imediato”. Ao longo da noite, mesmo com dores intensas e sangramento crescente, os pedidos por uma cesariana e por monitoramento fetal foram ignorados. Em meio ao desespero, a mulher ouviu uma frase cruel de um dos profissionais: “Agora sua filha é prioridade da unidade? Todo mundo está esperando, senhora”.
A paciente afirma que o médico admitiu agir “por birra” após ela insistir pelo atendimento. O resultado foi devastador: o bebê morreu dentro do útero da mãe, que teve de conviver por horas com o corpo da filha antes do parto ser realizado. O caso causou revolta entre pacientes e familiares que presenciaram o drama e acusam o hospital de negligência e desumanidade.
A tragédia reacendeu denúncias sobre a atuação da Associação Gestão, Inovação e Resultados em Saúde (AGIR), responsável pela administração do Complexo Hospitalar Sul, que inclui o Dona Lindu e o Hospital 28 de Agosto. Desde que assumiu a gestão, em dezembro de 2024, a empresa tem sido alvo de inúmeras críticas, que vão desde perseguição a profissionais de saúde até supostas fraudes em processos seletivos e falta de transparência na aplicação de recursos públicos.
O Conselho Regional de Medicina do Amazonas (CRM-AM) já apontou mais de 20 irregularidades em unidades sob gestão de organizações sociais, incluindo a AGIR, por falta de médicos habilitados, ausência de registros adequados e estrutura precária. O Sindicato dos Médicos do Amazonas (SIMEAM) também denunciou que profissionais que tentam expor falhas e deficiências no atendimento estariam sendo intimidados e punidos. Na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), o deputado Wilker Barreto reforçou que o contrato firmado entre o Governo do Estado e a empresa apresenta indícios de ilegalidade e fere princípios da transparência pública.
Para familiares e pacientes, o caso da bebê morta é o retrato da falência de uma gestão que prometeu “humanização e eficiência”, mas entregou desespero, dor e abandono. Nos corredores da maternidade, relatos de falta de médicos, demora em atendimentos e gestantes em sofrimento são cada vez mais frequentes.
A responsabilidade, segundo especialistas e representantes da categoria médica, é compartilhada: tanto da AGIR, que conduz o modelo de gestão terceirizada, quanto da Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM), que tem o dever de fiscalizar o contrato e garantir a qualidade do atendimento. A falta de ação efetiva coloca em risco a vida de mães e bebês e transforma unidades públicas em espaços de medo e omissão.
A família da bebê promete buscar justiça e exige que os responsáveis sejam punidos. Movimentos sociais e entidades médicas pedem uma investigação rigorosa do Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM), além da revisão imediata do contrato da AGIR com o Governo. “Eu quero que paguem pelo que fizeram com a minha filha. Não é só a médica. É o hospital todo, é quem manda ali dentro”, disse a mãe, em prantos.
Enquanto o caso ganha repercussão, cresce o sentimento de revolta entre a população amazonense, que há anos convive com promessas vazias e o sofrimento diário dentro dos hospitais públicos. A morte dessa bebê não é um episódio isolado — é o reflexo de um sistema adoecido, que precisa ser cobrado, reformulado e, acima de tudo, humanizado.
A vida que se perdeu no silêncio do Dona Lindu não pode ser esquecida. É o grito de uma mãe que ecoa por todas as mulheres que buscam atendimento digno e encontram portas fechadas.
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