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Fobia social: entenda o transtorno que afeta o influenciador Felca

Após falar sobre o bullying sofrido na infância, Felca reacende o debate sobre saúde mental, traumas e a falta de empatia nas redes sociais

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Foto: Reprodução/YouTube/@felcaseita
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A infância deveria ser aquele período em que a gente aprende a fazer amigos, descobre o mundo e coleciona histórias para contar no futuro. Mas, para muita gente, ela também guarda lembranças que ninguém gostaria de reviver: apelidos cruéis, humilhações, rejeição e a sensação de nunca ser bom o bastante.

O vídeo publicado por Felca, no qual ele falou sobre o bullying que sofreu desde criança, trouxe o assunto novamente à tona. E, como acontece tantas vezes na internet, uma conversa que poderia abrir espaço para reflexão acabou provocando também uma onda de críticas e ataques.

Parte das pessoas esperava que o influenciador se posicionasse politicamente, especialmente diante da proximidade das eleições presidenciais. Como o conteúdo publicado não correspondeu às expectativas de alguns, ele passou a ser alvo de cobranças e hostilidade.

E aqui vale uma pergunta: desde quando alguém precisa atender às expectativas políticas dos outros para merecer respeito?

É possível discordar de uma pessoa, questionar suas opiniões e até se decepcionar com o conteúdo que ela publica. O que não faz sentido é transformar essa frustração em justificativa para atacar alguém que compartilhou uma experiência dolorosa.

A internet parece ter criado uma espécie de tribunal permanente, no qual todo mundo se sente no direito de julgar, cobrar e condenar. Às vezes, esquecemos que, do outro lado da tela, existe uma pessoa de verdade, com sentimentos, limites e uma história que não conhecemos por inteiro.

E o mais contraditório é ver um relato sobre bullying provocar justamente comportamentos que podem reproduzir a lógica da humilhação: expor, ridicularizar e atacar quem não corresponde ao que esperávamos.

Não é preciso concordar com Felca em tudo para reconhecer a importância de discutir o bullying e seus efeitos. Uma coisa não anula a outra.

O bullying não termina necessariamente quando a agressão acaba

Para entender por que esse assunto merece tanta atenção, conversei com o psiquiatra Dr. Matheus Cabral Timoteo, que explica a diferença entre timidez e fobia social e como experiências de rejeição podem afetar a maneira como uma pessoa se relaciona com o mundo.

Segundo o médico, a timidez é uma característica comum, enquanto a fobia social, também chamada de transtorno de ansiedade social, envolve um medo intenso e persistente de ser julgado negativamente, passar vergonha ou demonstrar nervosismo diante de outras pessoas.

O problema aparece quando esse medo começa a limitar a vida. A pessoa pode evitar festas, conversas em grupo, apresentações, reuniões e até situações simples do cotidiano. Em alguns casos, enfrenta essas experiências com sofrimento intenso, prejudicando os estudos, o trabalho e os relacionamentos.

O bullying pode ser um dos fatores associados a esse quadro, embora nem toda vítima desenvolva fobia social e nem todo caso do transtorno tenha origem nas agressões sofridas na infância.

O que acontece é que experiências repetidas de humilhação podem influenciar a maneira como alguém interpreta as relações sociais. Quem foi ridicularizado muitas vezes pode crescer esperando que a próxima pessoa também vá criticá-lo, rejeitá-lo ou fazer piada às suas custas.

A medicação também pode ajudar, conforme a avaliação clínica. Em adultos, alguns antidepressivos, como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, são opções utilizadas no tratamento.

Eles podem reduzir a ansiedade e facilitar a participação nas situações sociais; a escolha depende das necessidades e preferências da pessoa. Em crianças e adolescentes, a psicoterapia costuma ser priorizada, e a medicação não é uma indicação de rotina para esse transtorno.

É possível melhorar mesmo depois de anos. Procurar ajuda cedo evita prolongar o sofrimento, mas ter um problema antigo não significa que seja tarde demais para tratá-lo.

E essa expectativa pode acompanhar alguém por muitos anos, mesmo quando o ambiente já mudou.

Quando a crueldade dos outros vira a nossa própria voz

A parte mais delicada do bullying talvez seja aquilo que não aparece nas fotografias nem nos vídeos: a maneira como a vítima passa a enxergar a si mesma.

Uma criança ainda está desenvolvendo sua identidade e não tem necessariamente maturidade para compreender que a crueldade de outra pessoa não define seu valor. Em vez de pensar que está sendo tratada injustamente, pode começar a acreditar que existe algo de errado com ela.

É assim que apelidos e humilhações podem contribuir para sentimentos de vergonha, insegurança e inadequação. Na adolescência ou na vida adulta, essas marcas podem aparecer como medo de falar, necessidade de aprovação, dificuldade de estabelecer limites ou receio constante de ser rejeitado.

A biomédica Telma Abrahão, especialista em neurobiologia do trauma e desenvolvimento infantil, explica que o bullying frequente e intenso pode influenciar circuitos cerebrais envolvidos na percepção de ameaças e na regulação emocional.

O cérebro infantil está em desenvolvimento e é influenciado pelas experiências vividas. Quando uma criança é constantemente humilhada, seu sistema nervoso pode passar a interpretar situações sociais como ameaçadoras. Isso pode contribuir para respostas emocionais mais intensas diante de críticas e rejeições.

Mas é importante fazer uma distinção: essas experiências não determinam o futuro de ninguém. O bullying está associado a um risco maior de problemas emocionais, incluindo ansiedade e depressão, mas seus efeitos variam de pessoa para pessoa.

Como destaca Telma, o cérebro tem capacidade de mudar ao longo da vida. Acolhimento, relações seguras e acompanhamento psicológico podem ajudar a elaborar essas experiências e construir maneiras mais saudáveis de lidar com as relações sociais.

O cérebro pode aprender a confiar novamente

A boa notícia é que ninguém está condenado a viver para sempre sob o peso das experiências da infância.

A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de modificar suas conexões e seus padrões de funcionamento a partir de novas experiências e aprendizados. Isso não significa apagar o passado, mas aprender a lidar com ele de outra maneira.

A psicoterapia pode ajudar a pessoa a reconhecer pensamentos negativos, compreender seus medos e desenvolver estratégias para enfrentar situações sociais. Nos casos de fobia social, a terapia cognitivo-comportamental é uma das abordagens utilizadas. Dependendo da avaliação clínica, o psiquiatra também pode considerar medicamentos.

Para crianças e adolescentes, o apoio dos adultos é fundamental. Pais e professores precisam ouvir sem minimizar o sofrimento, investigar o que está acontecendo e tomar medidas concretas para interromper as agressões.

Afinal, não adianta pedir que uma criança seja forte enquanto ela continua exposta àquilo que a machuca. A responsabilidade não pode ficar apenas sobre os ombros de quem está sofrendo.

E talvez essa seja uma lição que também valha para os adultos conectados à internet.

Empatia não deveria depender de concordância

Meu pai dizia uma frase que continua fazendo todo o sentido: “Não faça para os outros o que você não gostaria que fizessem a você.”

É uma regra simples, daquelas que cabem numa conversa de família, mas que parecem ser esquecidas quando entramos nas redes sociais.

Imagine contar uma experiência dolorosa e, em vez de encontrar compreensão, receber uma enxurrada de ataques porque algumas pessoas esperavam outra coisa de você. Como se a sua dor deixasse de importar por não ter vindo acompanhada da opinião política que os outros gostariam de ouvir.

Ninguém é obrigado a gostar de um influenciador, concordar com suas ideias ou consumir seu conteúdo. Mas respeito não deveria ser um prêmio concedido apenas a quem pensa como nós.

O debate político é importante. A crítica também. Só que nenhuma dessas coisas exige que abandonemos a humanidade ao atravessar a tela do celular.

O relato de Felca é uma oportunidade para olhar com mais atenção para as marcas que o bullying pode deixar e para a forma como tratamos quem decide falar sobre elas. Não precisamos transformar a experiência de uma pessoa em diagnóstico, nem presumir tudo o que ela sente. Precisamos, antes de tudo, escutar o que foi compartilhado sem usar isso como licença para atacar.

Porque o bullying não é apenas aquilo que acontece no pátio da escola. A humilhação também pode se repetir na vida adulta, nos ambientes de trabalho e nas redes sociais, sempre que alguém escolhe diminuir outra pessoa para expressar sua frustração.

E, se queremos uma sociedade menos cruel com as crianças, talvez seja hora de começar observando o comportamento dos adultos.

No fim das contas, a pergunta é simples: se fosse com você, como gostaria de ser tratado?

Meu pai tinha razão. Às vezes, a gente não precisa de uma grande teoria para saber como agir. Só precisa lembrar de tratar o outro como gostaria de ser tratado.

Fonte: R7

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