AMAZONAS
A Virada Feminina no Amazonas: resistência, acolhimento e combate à violência contra a mulher
Em um estado marcado por profundas desigualdades sociais, longas distâncias geográficas e altos índices de violência de gênero, o movimento Virada Feminina no Amazonas vem se consolidando como uma das principais forças de enfrentamento à violência contra a mulher. Sob a liderança da ativista Cileide Moussallem, o grupo tem sido protagonista em ações de acolhimento, denúncia e transformação social, especialmente entre mulheres indígenas, ribeirinhas e vítimas de violência doméstica.
Mesmo diante de perseguições políticas, machismo institucional e ataques direcionados por sua atuação, Cileide se mantém à frente da Virada com coragem e firmeza, sendo referência nacional em políticas de enfrentamento à violência de gênero.
Caso chocante escancara violência institucional no interior do Amazonas
Em julho de 2025, uma denúncia feita pela Virada Feminina ganhou repercussão nacional e escancarou a brutalidade da violência institucional praticada contra mulheres indígenas no estado. Uma mulher da etnia Kokama, de 29 anos, revelou ter sido estuprada coletivamente por quatro policiais militares e um guarda municipal, enquanto esteve presa por nove meses em uma cela masculina da 53ª Delegacia de Polícia de Santo Antônio do Içá, interior do Amazonas.

A vítima estava encarcerada com seu bebê recém-nascido, sem qualquer assistência médica e em total desrespeito aos direitos assegurados pela legislação brasileira. Os abusos ocorreram durante esse período, inclusive enquanto a mulher amamentava o filho.
A atuação direta da Virada Feminina foi essencial para a mobilização da Defensoria Pública do Estado, Ministério Público, Funai e imprensa. Graças à pressão social e institucional provocada pelo movimento, quatro dos cinco suspeitos já foram presos preventivamente.
“Se o Estado viola, nós denunciamos. Se o Estado se omite, nós agimos. Nossa luta é por todas as mulheres que ainda não têm voz”, declarou Cileide Moussallem.
Impacto direto na redução da violência contra a mulher no estado
Os números comprovam a força da mobilização popular. Segundo o Ministério da Justiça, o Amazonas registrou uma redução de 70% nos casos de feminicídio nos quatro primeiros meses de 2025 — um dado que contrasta com a queda nacional, de apenas 2,4%.
A capital, Manaus, contabilizou apenas dois feminicídios consumados no período. Os autores foram presos em flagrante e os casos tiveram acompanhamento direto de movimentos como a Virada, que além de denunciar, também oferece acolhimento psicológico, jurídico e suporte social às vítimas.

Outros casos denunciados e acompanhados pela Virada Feminina
A atuação da Virada não se restringe ao caso da mulher indígena. O movimento esteve à frente de diversas outras denúncias nos últimos meses, entre elas:
- O caso de uma mulher brutalmente espancada por um cantor local, que teve o rosto desfigurado e os dentes quebrados. Após a denúncia pública da Virada, o agressor foi afastado de eventos e investigações foram abertas.
- A denúncia contra um instrutor de tiro que agrediu e ameaçou sua ex-companheira. A pressão social ajudou a acelerar o processo judicial e garantir proteção à vítima.
Ações práticas: da denúncia ao acolhimento
A Virada Feminina realiza ações concretas em diversas frentes, com foco em comunidades vulneráveis, zonas de difícil acesso e regiões periféricas. Entre as principais iniciativas, destacam-se:
• Atendimento comunitário
- Presença em comunidades indígenas e ribeirinhas com distribuição de alimentos, roupas e kits de higiene.
- Roda de conversa com foco em direitos das mulheres, combate à violência e fortalecimento emocional.
• Apoio jurídico e psicológico
- Encaminhamentos à Casa Antônia Nascimento Priante, que acolhe mulheres em risco.
- Atendimento com advogadas, psicólogas e assistentes sociais voluntárias.
• Capacitação e geração de renda
- Oficinas de corte e costura, culinária e empreendedorismo.
- Apoio para o ingresso de mulheres no mercado de trabalho formal e informal.

Campanhas de impacto
Nos últimos dois anos, a Virada liderou campanhas que marcaram a luta feminista no Amazonas:
- De Cabeça Erguida: mobilização com mais de 500 mulheres, oferecendo atendimentos gratuitos e palestras educativas.
- Não Estamos Sozinhas: projeto de escuta ativa e suporte emocional para mulheres em sofrimento psíquico.
- Justiça Para Elas: mutirão de atendimento jurídico gratuito para vítimas de abuso e violência patrimonial.
Reconhecimento público e nacional
Mesmo sem ocupar cargo político, Cileide Moussallem já foi homenageada pela Câmara Municipal de Manaus, Assembleia Legislativa do Amazonas, além de citada em fóruns nacionais sobre direitos das mulheres. Seu nome é considerado, inclusive, para assumir futuramente a representação da ONU Mulheres no Brasil.
A força de sua atuação é sustentada pelo apoio de outras mulheres e pela coerência de sua luta, pautada sempre no cuidado, na escuta e na ação.

A luta continua
Cileide Moussallem representa a força das mulheres que se recusam a serem caladas. Sua liderança à frente da Virada Feminina é símbolo de um movimento que cresce, acolhe, denuncia e transforma. Mesmo sob ataque, sua voz permanece firme, ecoando por todas aquelas que ainda sofrem em silêncio.
“Não precisamos de político. Precisamos umas das outras. E é por isso que a Virada Feminina existe: para que nenhuma mulher volte a ser invisível.” – Cileide Moussallem
