AMAZONAS
O que há por trás de um diploma? A realidade da formação continuada dos professores brasileiros
Receber um diploma costuma ser apresentado como o momento em que uma trajetória chega ao fim e uma conquista é celebrada. Mas, ao receber meu diploma de Mestre em Geografia, uma pergunta ecoava dentro de mim: o que há por trás de um diploma? O que, de fato, recebemos através dele?
Talvez essa pergunta tenha surgido porque esse não foi apenas mais um título acadêmico. Foi uma travessia.
Durante três anos vivi uma jornada que transformou profundamente minha forma de compreender o conhecimento, a educação e, principalmente, a mim mesma. Aprendi que um diploma nunca representa apenas horas de estudo ou uma pesquisa concluída. Ele carrega histórias invisíveis, renúncias, dores, resistências e marcas que dificilmente aparecem na fotografia da cerimônia de colação de grau.
Certa vez ouvi o Mestre Mário Meir explicar o conceito de mérito na tradição cabalista. Segundo ele, mérito não é algo concedido simplesmente porque alguém “merece”. O verdadeiro mérito nasce da caminhada, do esforço consciente, da perseverança e da capacidade de permanecer firme diante das adversidades.
Essa compreensão faz muito mais sentido para mim do que o discurso da meritocracia.
A meritocracia, da forma como costuma ser apresentada, parte da falsa ideia de que todos começam a corrida no mesmo ponto. Mas basta olhar para a realidade brasileira para perceber que isso não corresponde aos fatos.
Enquanto alguns encontram uma estrada pavimentada por oportunidades educação de qualidade, estabilidade financeira, apoio familiar, tempo para estudar e condições adequadas de trabalho outros precisam, antes mesmo de caminhar, construir o próprio chão.
Eu pertenço a esse segundo grupo.
Nasci na periferia e aprendi desde cedo que, para ocupar determinados espaços, seria preciso romper barreiras e furar bolhas. Tenho orgulho dessa história. No entanto, também compreendi que não podemos romantizar o sofrimento como se ele fosse um requisito para o sucesso.
Ser pobre não é demérito.
Mas a pobreza dificulta o acesso ao conhecimento, limita oportunidades e torna qualquer conquista muito mais desgastante.
A realidade da formação continuada dos professores brasileiros revela exatamente essa contradição.
Fala-se constantemente sobre a importância da valorização docente e da qualificação profissional. Os discursos institucionais exaltam a necessidade de professores pesquisadores, inovadores e comprometidos com a produção científica. Entretanto, na prática, muitos desses profissionais precisam enfrentar um sistema que, em vez de incentivar sua formação, cria obstáculos para que ela aconteça.
Sou professora das redes públicas estadual e municipal do Amazonas.
Durante meu mestrado, não obtive da Secretaria de Estado de Educação a liberação prevista em lei para minha formação. A legislação existia, mas não foi cumprida.
Continuei trabalhando quarenta horas semanais em sala de aula enquanto desenvolvia uma pesquisa científica que exigia leituras, trabalho de campo, escrita, orientação, participação em eventos e inúmeras horas dedicadas à produção do conhecimento.
Além disso, sou mãe solo de uma criança atípica, convivo com fibromialgia e outras comorbidades que afetam significativamente minha saúde física e mental.
Não recebi bolsa de estudos nem qualquer incentivo financeiro por parte do Estado. O que encontrei foram sucessivas negativas ao meu processo de afastamento para estudos. Procurei vereadores, deputados e diferentes instâncias do poder público, buscando apenas que uma legislação existente fosse respeitada.
Recebi apenas negativas.
Esse relato não busca despertar pena.
Busca denunciar uma realidade compartilhada por milhares de professores brasileiros.
Quantos profissionais adoecem tentando conciliar jornadas exaustivas de trabalho com cursos de especialização, mestrado e doutorado?
Quantos desistem porque não conseguem suportar o peso dessa sobrecarga?
Quantos produzem ciência às custas da própria saúde?
Depois de concluir meu mestrado, em 13 de março de 2026, meu corpo respondeu ao que minha mente insistia em silenciar.
Precisei ser afastada do trabalho porque adoeci.
E isso não é justo.
Nenhum professor deveria precisar sacrificar sua saúde para garantir um direito que deveria ser assegurado pelo Estado.
Quando um sistema exige adoecimento para produzir conhecimento, não estamos diante de uma política de valorização docente.
Estamos diante do fracasso dessa política.
Investir na formação continuada de professores não é um gasto.
É investir diretamente na qualidade da educação, na produção científica e no futuro do país.
Afinal, toda sociedade que deseja transformar sua realidade precisa começar valorizando aqueles que ensinam.
Apesar de tudo, não permiti que as dificuldades definissem minha história.
Concluí meu mestrado.
Agora caminho em direção ao doutorado.
Não porque acredito que o sofrimento seja um caminho necessário para o conhecimento, mas porque continuo acreditando na potência transformadora da educação.
Sigo movida pela esperança de que as próximas gerações de professores encontrem um cenário diferente daquele que encontrei. Um cenário em que direitos sejam efetivamente cumpridos, em que a formação continuada deixe de ser um privilégio para poucos e passe a ser compreendida como uma política pública indispensável.
Hoje compreendo que, por trás de um diploma, não existe apenas um título. Existem renúncias, noites mal dormidas, lágrimas silenciosas, portas fechadas, dores invisíveis, pessoas que nos sustentam quando já não conseguimos caminhar sozinhos, fé, resistência e uma história inteira que nenhum papel é capaz de conter.
Talvez seja isso que, de fato, recebemos através dele.
Não apenas uma titulação acadêmica, mas uma nova versão de nós mesmos.
Uma versão mais consciente de nossas fragilidades e, ao mesmo tempo, da força que habita em nós. Uma versão que compreende que conhecimento não é apenas aquilo que se aprende nos livros, mas também aquilo que a vida nos obriga a sentir.
Hoje recebo esse diploma não como o fim de uma caminhada, mas como a memória viva de tudo o que precisei atravessar para chegar até aqui. Ele não representa apenas uma conquista pessoal; representa milhares de professores brasileiros que continuam resistindo para estudar, pesquisar e ensinar.
Que minha trajetória sirva não para glorificar o sofrimento, mas para provocar uma reflexão coletiva: nenhum professor deveria adoecer para exercer o direito de aprender.
Porque o verdadeiro mérito não está em sobreviver a um sistema que nos adoece. O verdadeiro mérito de uma sociedade será construir condições para que seus educadores possam florescer.
Viviane Mendes Couto
Mestra em Geografia – Universidade Federal do Amazonas (UFAM)
📖 Dissertação: A água como elemento simbólico para a construção de um lugar: memórias e vivências dos moradores do bairro Colônia Antônio Aleixo, Manaus-AM.
