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Doce interestelar? Pesquisadores descobrem açúcar no espaço

Centro de Astrobiologia da Espanha identifica o primeiro açúcar no espaço interestelar: a eritrulose, comum na framboesa

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Foto: Ashley Barnes/Izaskun Jiménez-Serra/Juan García de la Concepción

Eles estão em tudo. E você vive tentando se livrar deles. Refrigerante, suco, biscoito e até nos salgados, molhos, pão de forma e até na sopa.

E muito além disso: dentro da formação das suas células e das células de todos os seres vivos. Os açúcares são considerados blocos fundamentais da vida como nós a conhecemos.

Mas a pergunta que intriga cientistas há décadas é: eles vieram de onde?

Imagina o seguinte: os açúcares fazem parte da formação do DNA e do RNA, e desempenham papéis fundamentais no metabolismo dos organismos. O problema é que experimentos em laboratório indicaram que é muito difícil eles se formarem naturalmente fora de processos biológicos.

Segundo os pesquisadores, algumas moléculas já foram localizadas em asteroides e meteoros, o problema é que eles nunca haviam sido detectados no meio interestelar. Até agora.

Um estudo feito pelo Centro de Astrobiologia da Espanha pode ter dado uma nova pista.

A equipe internacional liderada pela pesquisadora Izaskun Jiménez-Serra identificou o primeiro açúcar no espaço interestelar: a eritrulose.

É um tipo de açúcar simples usado amplamente pela indústria cosmética em fórmulas de bronzeadores artificiais. É muito comum na framboesa, por exemplo.

“Nosso trabalho mostra que os açúcares podem se formar de maneira natural no espaço”, explica Izaskun.

Em entrevista ao SBT News, a astrobióloga Rebeca Gonçalves explicou que o açúcar é uma molécula ‘super versátil’, capaz de fazer ligações com outras moléculas e proteínas, sendo “uma parte essencial da construção da vida na Terra”.

Ela ressalta que encontrar essas moléculas no espaço fortalece o entendimento de que a origem da vida não depende de “um milagre químico exclusivo da Terra”, mas sim de “um processo que seja comum na galáxia e no universo”.

Analisando o espectro da luz da nuvem molecular, localizada perto do centro de nossa galáxia, a Via Láctea, a equipe identificou marcadores da eritrulose medidos em laboratório. E descobriu que a substância pode se formar dentro de gelos interestelares a partir de álcoois e aldeídos mais simples.

Para entender como é possível identificar uma substância a tantos anos-luz de distância, Rebeca explica que a técnica de espectroscopia funciona porque toda molécula emite fótons e vibra em uma frequência específica no espectro eletromagnético. “Cada molécula tem uma assinatura mesmo, que é única”, ilustra a astrobióloga.

Os cientistas apontam potentes radiotelescópios para as nuvens moleculares, recebem as frequências de ondas de rádio que viajaram pelo espaço e comparam com os dados de laboratório: “se der um match, é inevitavelmente aquela molécula que tá ali naquela nebulosa”.

Com isso, eles estimaram que entre 0,5 e 50 milhões de toneladas desse açúcar acabaram caindo na Terra durante um intenso bombardeio de meteoros que atingiu o planeta entre 4,1 e 3,8 bilhões de anos atrás.

A astrobióloga detalha que esse evento, conhecido como o Intenso Bombardeio Tardio, pode ter trazido do espaço não apenas açúcares, mas diversas outras moléculas fundamentais.

“A Terra foi bombardeada com meteoritos que trouxeram essas moléculas fundamentais para a vida e que abasteceram a Terra com essas moléculas orgânicas, o que pode ter sido um catalisador para a vida ter surgido”, diz.

Uma pista importante que pode, no futuro, ajudar a revelar como surgiu a vida no nosso planeta.

“A detecção da eritrulose é muito empolgante porque abre a possibilidade de descobrir no espaço outros açúcares como a ribose, que faz parte do RNA, e outras moléculas importantes para a origem da vida”, diz Carlos Briones, coautor do estudo.

Mas será que isso responde à grande pergunta da astrobiologia: estamos sozinhos no universo?

Rebeca Gonçalves faz uma ressalva importante: “Encontrar açúcar não significa encontrar vida. O açúcar é simplesmente uma das milhares de peças e condições que são necessárias para a vida”. Contudo, a descoberta abre um horizonte otimista.

“Se as bases fundamentais da vida, como a gente conhece, são mais comuns do que a gente imagina, então pode ser que a vida seja comum também”, diz.

Fonte: SBT News

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